O QUE ELES ESCONDEM

segunda-feira, 21 de agosto de 2017

O assessor de segurança do presidente Jimmy Carter : “Eu criei o terrorismo jihadista e não me arrependo!”

Por Nazanín Armanian *

“Que é mais importante para a história do mundo? O Talibã ou o colapso do império soviético?” É a resposta de quem foi o assessor de segurança do presidente Jimmy Carter, Zbigniew Brzezinski, à pergunta da revista francesa Le Nouvel Observateur, de 21 de Janeiro de 1998, sobre as atrocidades que cometem os jihadistas de Al-Qaeda. Uma arrepiante falta de ética de indivíduos como ele que destroem a vida de milhões de pessoas para alcançar os seus objectivos.
Nesta entrevista, Brzezinski confessa outra realidade: que os jihadistas não vieram do Paquistão para libertar a sua pátria dos ocupantes infiéis soviéticos, mas que seis meses antes da entrada do exército vermelho no Afeganistão, os EUA puseram em marcha a Operação Ciclone a 3 de Julho de 1979, enviando 30.000 mercenários armados, inclusivamente com mísseis Tomahawk, para o Afeganistão, com o intuito de arrasar o país, difundir o terror, derrubar o governo marxista do Doutor Nayibolá e montar uma armadilha à URSS: convertê-lo no seu Vietname. E conseguiram. À sua passagem, violaram milhares de mulheres, decapitaram milhares de homens e provocaram a fuga de cerca de 18 milhões de pessoas dos seus lares, quase nada. Caos que continua até hoje.
Esta foi a pedra angular em que assenta o terrorismo “jihadista” e a que Samuel Huntington deu cobertura teórica com o seu Choque de Civilizações. Conseguiram, assim, dividir os pobres e deserdados do Ocidente e Oriente, fazendo com que se matassem no Afeganistão, Iraque, Jugoslávia, Iémene, Líbia e Síria, confirmando as palavras Paul Valéry: “A guerra é um massacre entre gentes que não se conhecem, para proveito de gentes que se conhecem mas não se massacram.”
Conseguiram, pois, neutralizar a oposição de milhões de pessoas às guerras e converter em ódio a empatia. Com o método nazi de “uma mentira repetida mil vezes converte-se numa verdade”:
·         O atentado de 11 de Setembro não o cometeram os talibãs afegãos. A CIA, em 2001, tinha implicado o governo da Arábia Saudita no massacre. Porquê, então, os EUA invadiram e ocuparam o Afeganistão?

·         As armas de destruição maciça o Iraque não as tinha. O único país do Próximo Oriente que as possui, e de forma ilegal, é Israel e graças aos EUA e à França.

·         Tão-pouco os EUA necessitavam invadir o Iraque para deitar a mão ao petróleo. Demolir o Estado iraquiano tinha vários motivos, como eliminar um potencial inimigo de Israel e ocupar militarmente o coração do Próximo Oriente, convertendo-se em vizinho do Irão, Arábia Saudita e Turquia.

·         As cartas com antrax que, nos EUA, mataram 5 pessoas, em 2001, não as enviou Saddam Husein como jurava Colin Powell, mas Bruce Ivins, biólogo dos laboratórios militares de Fort Derrick, Maryland, que “se suicidou” em 2008.

·         Ocultaram a (possível) morte de Bin Laden, agente da CIA, até à pantomina organizada a 1 de Maio de 2011 por Obama, no assalto hollywoodesco dos SEAL a um domicílio em Abottabad, apesar da ex-primeira ministra do Paquistão, Benazir Bhutto ter afirmado, a 2 de Novembro de 2007, que o saudita tinha sido assassinado por um possível agente do M16 (porventura em 2002). Benazir foi assassinada quase um mês depois desta revelação. Manter “vivo” Bin Laden durante 8 a 9 anos serviu aos EUA para aumentar o orçamento do Pentágono (de 301 mil milhões de dólares, em 2001, para 720 mil milhões, em 2011), incrementar os contratos de armas com a Boeing, Lockheed Martin, Raytheon, etc., e vender milhões de aparelhos de segurança e câmaras de vídeo vigilância, montar prisões ilegais pelo mundo, legitimar e legalizar o uso da tortura, praticar assassinatos selectivos e colectivos (chamados “danos colaterais”) e concederem a si mesmos o direito exclusivo de invadir e bombardear o país que desejarem.

Uma vez testados no Afeganistão, a NATO enviou estes “jihadistas” para a Jugoslávia com o nome de Exército de Libertação do Kosovo e depois para a Líbia, pondo-lhes o nome de Ansar al Sharia e para a Síria onde primeiro lhes chamou “rebeldes” e, depois, lhes deu outros cinco ou seis nomes diferentes. Nesta corporação terrorista internacional, a CIA encarrega-se do treino, a Arábia Saudita e o Quatar da “caixa automática”, como disse o ministro alemão do Desenvolvimento, Gerd Mueller, e a Turquia, membro da NATO, acolhe, treina e trata os homens do Estado Islâmico. Os mesmos países que formam a “coligação anti-terrorista”.
Como é que dezenas de serviços de informação e exércitos de cerca de 50 países, meio milhão de efectivos da NATO instalados no Iraque e no Afeganistão, que gastaram milhares de milhões de dólares e euros na “guerra mundial contra o terrorismo” durante 15 largos anos, não puderam acabar com uns milhares de homens armados com espada e adaga da AL-Qaeda?


Assim fabricaram o Estado Islâmico
Síria, finais de 2013. Os neocon aumentam a pressão sobre o presidente Obama para enviar tropas para a Síria e necessitam um casus belli. O veto, no Conselho de Segurança, da Rússia e da China a uma intervenção militar, ausência de uma alternativa capaz de governar o país uma vez derrubado ou assassinado o presidente Assad, o temor a uma situação caótica na fronteira de Israel, eram parte dos motivos de Obama a negar-se. Contudo, o presidente e os seus generais perdem a batalha e os sectores mais belicistas do Pentágono e da CIA, o Quatar, a Arábia Saudita, a Turquia e os meios de comunicação afins assaltam a opinião pública com imagens de decapitações e violações cometidas por um certo Estado Islâmico. Quando o mundo aceita que “há que fazer algo” e não ter a autorização da ONU para atacar a Síria, o Pentágono, bombeiro pirómano, desenha uma engenharia militar especial:
1.    Transfere em Junho de 2014 um sector do Estado Islâmico da Síria para o Iraque, país sob o seu controle, deixando que ocupe tranquilamente 40% do país a aterrorizar cerca de 8 milhões de pessoas, a matar milhares de iraquianos, a violar mulheres e raparigas.

2.    Organizou uma poderosa campanha de propaganda sobre a crueldade do Estado Islâmico, semelhante à que fizeram com as lapidações dos talibãs às mulheres afegãs e, assim, poder “libertar” aquele país. Até a eurodeputada Emma Bonino caiu no embuste, encabeçando a luta contra a burka, olhando o dedo em vez da lua!

3.    Afirmou que, ao instalar-se o quartel-general dos terroristas na Síria, deviam atacar a Síria.

4.    Obama demitiu de forma fulminante o primeiro-ministro iraquiano Nuri al Maliki, por opor-se ao uso do território iraquiano para atacar a Síria.

5.    Objectivo conseguido: os EUA puderam, por fim, bombardear ilegalmente a Síria, a 23 de Setembro de 2014, sem tocarem nos “jihadistas” do Iraque. Graças ao Estado Islâmico, hoje os EUA (e França, Grã-Bretanha e Alemanha) contam com bases militares na Síria, pela primeira vez na sua história, donde poderão controlar toda a eurásia. A Síria deixa de ser (depois da queda da Líbia em 2001pela NATO) o único país do Mediterrâneo livre de bases militares dos EUA.

6.    E o surpreendente é que, desde esta data até Julho de 2017, o Estado Islâmico mantém ocupado o norte do Iraque sem que dezenas de milhares de soldados dos EUA tenham feito absolutamente NADA. Por fim, o exército iraquiano e as milícias estrangeiras chiitas libertam Mossul, isso sim, cometendo terríveis crimes de guerra contra os civis.

O terrorismo na estratégia do “Império do Caos”
O terrorismo “jihadista” cumpre 4 funções principais para os EUA: militarizar a atmosfera nas relações internacionais, em prejuízo da diplomacia; arrebatar as conquistas sociais, instalando estados policiais (os atentados de Boston, de Paris e inclusivamente o de Orlando) e uma vigilância a nível mundial; ocultar as decisões vitais aos cidadãos; fazer de buldózer, aplanando o caminho da invasão das suas tropas em determinados países e provocar o caos, e não como meio mas como objectivo em si.
Se durante a Guerra Fria Washington mudava os regimes na Ásia, na África e na América Latina mediante golpes de Estado, hoje para ajoelhar os povos indomáveis, recorre a bombardeamentos, envia esquadrões da morte, impõe sansões económicas, para matá-los, debilitá-los, deixá-los sem hospitais, água potável e alimentos, com o fim de que não levantem a cabeça durante gerações. Assim, converte poderosos Estados em Estados falidos, para se moverem sem impedimentos pelos seus territórios sem governo.
Os EUA que, desde 1991, são a única superpotência mundial, têm sido incapazes de manter o controlo dos países invadidos, devido ao surto de outros actores e alianças regionais que reivindicam o seu lugar no mundo novo.
E como não come nem deixa comer, os EUA decidiram, provocando o caos, sabotar a criação de uma ordem multipolar que tenta gerir-se a si mesma; debilita os BRICS, conspirando contra Dilma Russef e Lula no Brasil; impede uma integração económica na eurásia, proposta pela Rússia à Alemanha mas arquivada com a guerra na Ucrânia e mina o projecto chinês da Nova Rota da Seda e de uma integração geoeconómica da Ásia-Pacífico, que cobriria dois terços da população mundial. Em contrapartida, cria alianças militares como a “NATO sunita” e organizações terroristas com o propósito de afundar o Próximo Oriente em longas guerras de religião.
Anunciar que desenhou um plano para a “mudança de regime” no Irão, um imenso e povoado país, perante a dificuldade de uma agressão militar, significa que porá em marcha uma política de desestabilização do país, mediante atentados e tensões étnico-religiosas. A mesma política que pode aplicar à Coreia do Norte, Venezuela ou Bolívia e a outros da sua lista do “Eixo do Mal” e todos os meios para perpetuar a sua absolutista hegemonia global. Que tentasse derrubar o seu aliadoTayyeb Erdogan é o cúmulo da intolerância. Antes dos trágicos atentados na Catalunha, o Estado Islâmico atacou a aldeia afegã de MIrza Olang. Encheu várias valas comuns com pelo menos 54 cadáveres de mulheres e homens e três meninos decapitados e levou umas 40 mulheres e meninas para violá-las.
Conclusão: o “jihadismo” não é fruto da exclusão dos muçulmanos nem sequer se trata da lógica dos vasos comunicantes e regresso dos “terroristas que criámos no Oriente”. “A vossa causa é nobre e Deus está convosco”, disse Zbigniew Brzezinski às suas criaturas, os jihadistas.

20 de Agosto de 2017

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* “Deixei metade da minha vida nas minhas terras persas e, quando aterrei nesta península de acolhimento, amada plataforma de exigência de pão e paz para todos, pus-me a exercer o desconcertante ofício de exilado: conhecer, aprender, admirar, transmitir, revelar e denunciar. Estes últimos aproveitando as aulas na universidade, os meios de comunicação e uma dezena de livros como “Robaiyat de Omar Jayyam” (DVD ediciones, 2004), “Kurdistán, el país inexistente” (Flor del viento, 2005), “Irak, Afganistán e Irán, 40 respuestas al conflicto de Oriente Próximo” (Lengua de Trapo, 2007 y “El Islam sin velo” (Bronce, 2009)”.


sábado, 12 de agosto de 2017




As ameaças de Trump à Venezuela são acompanhadas do mesmo discurso que Hitler fazia quando falava do "Reich dos mil anos". Trágico é os meios de comunicação, na sua maioria, servirem de 5ª coluna, abrindo o caminho à loucura de "fogo e fúria".


Esta imagem, retirada de um jornal espanhol, reproduz a foto de uma bomba, activada à distância, pela oposição, para atingir um grupo de polícias. No entanto, neste jornal e em muitos portugueses, serviu para ilustrar a repressão do governo de Maduro.
O texto de Juan Carlos Monedero analisa a situação política, social e económica venezuelana, da perspectiva de quem conhece muito bem aquele país, assumindo sobretudo a defesa dos Direitos Humanos.
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11 TESES SOBRE A VENEZUELA E UMA CONCLUSÃO DITADA PELA EXPERIÊNCIA

                                                                    Por Juan Carlos Monedero


“E empenhava-se em repetir o mesmo: “Isto não é como numa guerra… Numa batalha tens o inimigo pela frente… Aqui, o perigo não tem rosto nem horário”. Negava-se a tomar somníferos ou calmantes: “Não quero que me apanhem a dormir ou amodorrado. Se vierem por mim, defender-me-ei, gritarei, atirarei os móveis pela janela… Armarei um escândalo…”
                                                     Alejo Carpentier, A Consagração da Primavera

1    É indubitável que Nicolás Maduro não é Allende. Tão-pouco é Chávez. Porém, os que perpetraram o golpe contra Allende e contra Chávez são, e isso também é indubitável, os mesmos que estão, agora, intentando um golpe na Venezuela.

2.    Os inimigos dos teus inimigos não são os teus amigos. Podes não gostar de Maduro sem que isso implique esqueceres que nenhum democrata pode pôr-se ao lado dos golpistas, que inventaram os esquadrões da morte, os voos da morte, o paramilitarismo, o assassinato da cultura, a operação Condor, os massacres de camponeses e indígenas, o roubo dos recursos públicos. É compreensível que haja gente que não quer pôr-se do lado de Maduro, mas convém pensar que, no lado que apoia os golpistas, estão, na Europa, os políticos corruptos, os jornalistas mercenários, os nostálgicos do franquismo, os empresários sem escrúpulos, os vendedores de armas, os que defendem os ajustamentos económicos, os que festejam o neoliberalismo. Nem todos os que criticam Maduro defendem essas posições políticas. Conheço gente honesta que não suporta o que se está passando agora mesmo na Venezuela. É evidente, porém, que do lado dos que estão intentando um golpe militar nesse país, estão os que sempre apoiaram os golpes militares na América Latina ou os que põem os seus negócios acima do respeito pela democracia. Os meios de comunicação que estão a preparar a guerra civil na Venezuela são os mesmos conglomerados mediáticos que venderam que no Iraque havia armas de destruição maciça, que nos vendem que temos de resgatar os bancos com dinheiro público ou que defendem que a orgia dos milionários e dos corruptos temos que pagá-la entre todos com cortes e privatizações. Saber que se compartilha a trincheira com semelhante gente deveria fazer reflectir. A violência deve ser sempre a linha vermelha que não se deve ultrapassar. Não faz sentido que o ódio a Maduro ponha alguém decente ao lado dos inimigos dos povos.

3   Maduro herdou um papel muito difícil – gerir a Venezuela num momento de queda dos preços do petróleo e do regresso dos EUA à América Latina, depois da terrível aventura no Médio Oriente – e uma missão impossível – substituir Chávez. A morte de Chávez privou a Venezuela e a América Latina de um líder capaz de pôr em marcha políticas que tiraram da pobreza 70 milhões de pessoas no continente. Chávez entendeu que a democracia num só país era impossível e serviu-se dos seus recursos, num momento de acalmia, graças à recuperação da OPEP, para que se iniciasse a etapa mais luminosa das últimas décadas no continente: Lula no Brasil, Correa no Equador, Morales na Bolívia, Kirchner na Argentina, Lugo no Paraguai, Mujica no Uruguai, Funes em El Salvador, Petro em Bogotá e, inclusivamente, Bachelet no Chile, referenciavam essa nova etapa. A educação e a saúde chegaram aos sectores populares, completou-se a alfabetização, construíram-se habitações sociais, novas infraestruturas, transportes públicos (depois da sua privatização ou a venda e supressão dos comboios), travou a dependência do FMI, debilitou os laços com os EUA, criando a UNASUR e a CELAC.
Há, também, sombras, principalmente ligadas à debilidade estatal e à corrupção. Mas seria necessário um século para que os casos de corrupção nos governos progressista da América Latina somem, para citar só um aspecto, o custo da corrupção que o resgate bancário significa. A propaganda dos senhores da propaganda acaba por conseguir que o oprimido ame o opressor. Nunca, desde a demonização de Fidel de Castro, nenhum líder latino-americano foi tão vilipendiado como Hugo Chávez, que, para repartir pelos pobres, teve de dizer aos ricos, da América e também da Europa, que tinham de ganhar um pouco menos. Nunca toleraram isso, o que é compreensível, especialmente em Espanha, onde, a meio da crise, responsáveis económicos e políticos do Partido Popular roubavam às mãos cheias ao mesmo tempo que diziam às pessoas que tinham que apertar o cinto. Ia Chávez, esse “gorila”, travar-lhes os negócios? Desde que ganhou as primeiras eleições em 1998, Chávez teve de enfrentar numerosas tentativas para derrubá-lo. Claro está, com a inestimável ajuda da direita espanhola, primeiro com Aznar, logo com Rajoy e a já conhecida participação de Felipe González como lobistas dos grandes capitais (é curioso que o mesmo Aznar que fez negócios com a Venezuela e com a Líbia se tenha convertido de imediato em executor quando lho ordenaram. Kadafi, inclusivamente, presentiou Aznar com um cavalo. Pablo Casado foi o assistente de Aznar nessa operação e, de imediato, coisas da direita, festejaram o seu assassinato).

4.    Chávez não legou a Maduro os equilíbrios nacionais e regionais que construiu, políticos, económicos e territoriais. Eram uma construção pessoal, num país que saía das taxas de pobreza de 60% da população, quando Chávez chegou ao governo. Há mudanças que necessitam uma geração. É aí onde a oposição pretende estrangular Maduro, com problemas mal resolvidos como as importações, os dólares preferenciais ou as dificuldades de travar a corrupção que desembocam no desabastecimento. Contudo, Maduro soube reeditar o acordo “cívico-militar” que tanto contraria os amigos do golpismo. Coisa evidente, pois os EUA sempre fizeram os golpes procurando apoios em militares autóctones, mercenários e desertores. Os exércitos na América Latina só se explicam na sua relação com os EUA, que os formaram, quer em tácticas de tortura ou “luta contra- insurrecional”, quer no uso das armas que lhes vendem ou no respeito devido aos interesses norte-americanos. Na Venezuela, os mesmos que formaram os assassinos da Escola Mecânica da Armada argentina ou que ampararam o assassino Pinochet têm mais dificuldades (o assalto por parte de mercenários vestidos de militares a um quartel em Carabobo tinha em mira construir a sensação de fissuras no exército, algo que nos dias de hoje não parece existir). Tal como compraram militares, os EUA sempre compraram juízes, jornalistas, professores, deputados, senadores, presidentes, sicários e quem fizer falta para manter a América como o seu “pátio traseiro”. O cartel mediático internacional sempre lhes cobriu as costas. A existência dos EUA como império é que construiu o exército venezuelano. Os novos oficiais formaram-se no discurso democrático soberano e anti-imperialista. A sua maioria. Há também uma oficialidade – a maioria já a reformar-se – que se formou na velha escola e as suas razões para defenderem a Constituição venezuelana serão mais particulares. As deficiências do Estado venezuelano também afectam o exército, sobretudo em zonas problemáticas como as fronteiras. Mas os quartéis na Venezuela estão com o Presidente constitucional. E, por isso, é ainda mais patético ouvir o democrata Felipe González pedir aos militares venezuelanos que dêem um golpe contra o governo de Nicolás Maduro.

5.    A estas dificuldades de terem herdado os equilíbrios estatais e os acordos na região (a amizade de Chávez com os Kirchner, com Lula, com Evo, com Correa, com Hugo) há que acrescentar que a guerra da Arábia Saudita com o fracking (1) e com a Rússia afundou os preços do petróleo, a principal riqueza da Venezuela. Esta inesperada queda do preço do petróleo colocou o governo de Maduro numa situação complicada (é o problema das “monoculturas”. Para entender isso, basta pensar no que aconteceria em Espanha se o turismo se afundasse em 80% por causas alheias a um governo. Rajoy conseguiria 7 ou 8 milhões de votos numa situação assim?). Maduro teve que reconstruir os equilíbrios do poder num momento de crise económica brutal.

6.    A oposição na Venezuela anda a tentar dar um golpe de Estado desde o próprio dia em que Chávez ganhou. A Venezuela foi a figura de proa da mudança continental. Acabar com a Venezuela é retirar o tampão para que aconteça o mesmo nos sítios onde o neoliberalismo não regressou ainda. Às oligarquias incomodam-lhes os símbolos que debilitam os seus pontos de vista. Passou-se com a II República em 36, passou-se no Chile com Allende em 1973. Acabar com a Venezuela chavista é regressar à hegemonia neoliberal e, inclusivamente, às tentações ditatoriais dos anos 70.


7.    A Venezuela tem, para mais, as maiores reservas de petróleo do mundo, de água, de biodiversidade, o Amazonas, ouro e coltan (talvez a maior reserva do mundo). Os mesmos que levaram a destruição à Síria, ao Iraque ou à Líbia, para roubar-lhes o petróleo, querem fazer o mesmo na Venezuela. E, previamente, necessitam ganhar a opinião pública para que o roubo não seja tão evidente. Necessitam reproduzir na Venezuela a mesma estratégia que construíram quando falavam de armas de destruição maciça no Iraque. Ou não houve muita gente honesta que acreditou haver armas de destruição maciça no Iraque? Hoje, aquele país, antes próspero, é uma ruína. Quem acreditou naquelas mentiras do PP que veja como está, hoje, Mossul. Parabéns aos ingénuos! As mentiras continuam todos os dias. A oposição pôs uma bomba à passagem de polícias em Caracas e todos os meios de comunicação impressos publicaram a fotografia como se a responsabilidade fosse de Maduro. Um helicóptero roubado lançou granadas contra o Tribunal Supremo e os meios de comunicação silenciaram. São actos terroristas. Desses que abrem as primeiras páginas e os telejornais. Excepto quando sucedem na Venezuela. Um referendo ilegal na Venezuela “pressiona o regime até ao limite”. Um referendo ilegal na Catalunha é um acto que raia o delito de insurreição.

8.    O cartel mediático internacional encontrou um filão. Trata-se de uma reedição do medo perante a Rússia comunista, a Cuba ditatorial ou o terrorismo internacional (nunca dirão que o ISIS é uma construção ocidental, financiada com capital norte-americano, principalmente). A Venezuela converteu-se num novo demónio. Isso permite-lhes acusar os adversários de “chavistas” e evita falar da corrupção, do esvaziamento da caixa das pensões, da privatização dos hospitais, escolas e universidades ou dos resgates bancários. Mélenchon, Corbyn, Sanders, Podemos ou qualquer força de mudança na América Latina são desqualificados com a acusação de chavistas, numa altura em que acusar de comunista ou de etarra já não colhe. O jornalismo mercenário leva anos com esta estratégia. Nunca ninguém explicou que política genuinamente bolivariana está nos programas dos partidos da mudança. Mas pouco importa. O importante é difamar. E gente de boa vontade acaba por crer que há armas de destruição maciça ou que a Venezuela é uma ditadura onde, curiosamente, todos os dias a oposição se manifesta (inclusivamente atacando instalações militares), onde os meios de comunicação criticam livremente Maduro (não como na Arábia Saudita, Marrocos ou EUA) ou onde a oposição governa em municípios e regiões. É a mesma táctica que, durante a guerra fria, construiu o “perigo comunista”. Por isso, em Espanha temos, com a Venezuela, uma nova Comunidade Autónoma de que só falta dizerem-nos, no final dos telejornais, que tempo vai fazer em Caracas nesse dia. Cada cem vezes que se diz “Venezuela”, 95 só procuram distrair, ocultar ou mentir.

9.    A Venezuela tem um problema histórico que não está resolvido. Por carecer de minas enquanto foi colónia, não foi um vice-reino, mas simples capitania-geral. O século XIX foi uma guerra civil permanente e, no século XX, quando começou a construir o Estado, já tinha petróleo. O Estado venezuelano foi sempre rentista, carente de eficácia, corroído pela corrupção e refém das necessidades económicas dos EUA em conluio com as oligarquias locais. O choque entre o Parlamento e a chefia do Estado actual deveria ter sido resolvido juridicamente. Sinais de ineficiência vêm sendo evidentes desde há muito. O rentismo venezuelano nunca foi superado. A Venezuela redistribuiu a renda do petróleo pelos mais humildes, mas não superou essa cultura política rentista, nem melhorou o funcionamento do Estado. Não nos enganemos, porém. O Brasil tem uma estrutura jurídica mais consolidada e o Parlamento e alguns juízes deram um golpe de Estado contra Dilma Roussef. Donald Trump pode mudar o Procurador-Geral e não se passa nada, mas se Maduro o faz, chefe de Estado igualmente eleito em eleições, é acusado de ditador. Parte das críticas a Maduro é mentirosa porque esquece que a Venezuela é um sistema presidencialista. É por isso que a Constituição permite ao Presidente convocar uma Assembleia Constituinte. Gostar-se-á mais ou menos, mas o artigo 348 da Constituição vigente da Venezuela faculta ao Presidente essa tarefa, tal como em Espanha o Presidente do Governo pode dissolver o Parlamento.

10. Zapatero e outros ex-presidentes, o Papa, as Nações-Unidas vêm pedindo a ambas as partes, na Venezuela, que dialoguem. A oposição reuniu cerca de sete milhões de votos, embora seja mais complicado que possam chegar a um acordo em torno de um só candidato ou candidata à presidência do país). Maduro, num contexto regional muito complicado, com fortes apertos económicos que afectam a compra de produtos básicos, incluindo medicamentos, juntou oito milhões de votos (mesmo que fossem sete, segundo as declarações tão suspeitas do presidente do Smarmatic, que acaba de assinar um contrato milionário na Colômbia). A Venezuela está claramente dividida. A oposição, como de outras vezes, optou pela violência e, portanto, não entende que Maduro some tantos milhões de votos. Se em Espanha um grupo queimasse centros de saúde e escolas, disparasse contra o Tribunal Supremo, assaltasse quartéis, contratasse marginais para semear o terror, impedisse, com lutas de rua, o trânsito, e, inclusivamente, queimasse vivas as pessoas por pensarem diferentemente, alguém estranharia que a cidadania votasse na direcção contrária à desses loucos?

11. Fracassada a via violenta, à oposição venezuelana restam duas possibilidades: continuar com a via insurrecional, alentada pelo Partido Popular, Donald Trump e a extrema-direita internacional, ou tentar ganhar nas urnas. Os EUA continuam a pressionar (em declarações a um semanário uruguaio, o Presidente Tabaré disse que votou a expulsão ilegal da Venezuela do Mercosur por medo às represálias dos países grandes). 57 países da Nações Unidas exigiram que se respeite a soberania da Venezuela. Como os EUA não conseguem maioria para forçar a Venezuela, insistem em inventar espaços (como a declaração de Lima, sem qualquer força jurídica, por não ter conseguido maioria na OEA). A direita mundial quer acabar com a Venezuela, mesmo que isso custe sangue e fogo à população venezuelana. Por isso, alguns opositores, como Henry Ramos-Allup, apelaram ao fim da violência. A Venezuela tem no horizonte eleições municipais e regionais. Esse é o cenário onde a oposição deveria demonstrar a maioria que reclama. A Venezuela tem que convocar essas eleições e é uma excelente oportunidade para medir forças, eleitoralmente. Porque, de contrário, o choque que estamos a ver enquistar-se-á e converter-se-á numa gangrena terrível. A quem interessa uma guerra civil na Venezuela? Não nos enganemos. Os direitos humanos não interessam nem ao PP, nem a Trump. Se fosse assim, romperiam com a Arábia Saudita, que vai decapitar 15 jovens por manifestarem-se durante a Primavera árabe e dá chicotadas às mulheres que conduzem ou com a Colômbia onde sobem a 150 os assassinatos pelos paramilitares, nos últimos meses; ou no México, onde se assassina cada mês a um jornalista e aparecem valas comuns com dezenas de cadáveres. Penas de 75 anos estão-se pedindo nos EUA para manifestantes contra as políticas de Trump. A Venezuela converteu-se, em Espanha, na 18ª comunidade autónoma, só porque o presidente Rajoy teve de comparecer como testemunha pela corrupção do seu Partido. É mais fácil falar da Venezuela do que da corrupção dos 800 processados do PP. E há ingénuos que acreditam neles! Que dirão agora, quando a maior parte da oposição aceitou participar nas eleições regionais? O pacto entre o PSOE e Podemos, em Castilla-la-Mancha foi apresentado pela direita manchega como o começo da venezuelização de Espanha. Quanto descaramento e quanta estupidez! E há gente que acredita neles! Entretanto o PP guarda silêncio perante, por exemplo, as perseguições que a ditadura monárquica marroquina faz em Espanha aos dissidentes políticos ou por ordem do ditador Erdogan prende um jornalista crítico da ditadura turca. Haverá alguém que nos diga que a estes governos lhes interessa os direitos humanos?

Conclusão: Não é preciso estar de acordo, nem pouco mais ou menos, com Maduro e a sua maneira de fazer as coisas, para não aceitar o golpe de Estado que se quer construir na Venezuela. Estamos a falar de não voltar a cometer os mesmos erros, acreditando nas mentiras que os meios de comunicação constroem. A Venezuela tem de resolver os seus problemas, dialogando. É evidente que tem problemas. Mas, duas metades enfrentadas não vão a lado nenhum, monologando. Mesmo que uma parte seja apoiada pelos países mais poderosos do âmbito neoliberal. Nem o PP nem a direita querem diálogo. Querem que Maduro se entregue. E crê alguém que 8 milhões de votantes da Assembleia Constituinte iam ficar de braços cruzados? O novo governo reprimi-los-ia e, inclusivamente, assassiná-los-ia. Os meios de comunicação diriam que a democracia venezuelana estava a defender-se dos inimigos da democracia. E voltaria a haver gente ingénua que acreditaria neles. Do resto do mundo, em nome da democracia, bastam duas coisas: exigir e encorajar o diálogo na Venezuela e entender que seria bom não permitir nem ao PP, nem às direitas internacionais, começando por Donald Trump, reeditar uma das suas misérias mais horríveis que consiste em semear a dor noutros sítios, para ocultar a dor que provocam nos nossos próprios países.

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Este texto pode ser lido no original em http://blogs.publico.es/juan-carlos-monedero/2017/08/11/11-tesis-sobre-venezuela-y-una-conclusion-escarmentada/ 














sábado, 15 de julho de 2017

Leopoldo López, um golpista consequente

 Por Roberto Montoya*

“ Aos militares que hoje estão nas ruas quero mandar-lhes uma mensagem muito clara, muito serena e dentro da nossa Constituição: vocês também têm o direito e o dever de revoltar-se, de revoltar-se perante ordens que tentam reprimir o povo venezuelano”.
Estas são algumas das frases que Leopoldo López disse num dos últimos vídeos que gravou, em Junho passado, na prisão militar de Ramo Verde.
Neste e noutros vídeos, gravados antes e depois, por López, na prisão, o líder da Vontade Popular, um dos partidos mais ultras da multifacetada coligação opositora MUD (Mesa de Unidade Democrática) denunciou a “tirania” de Maduro, a “brutal repressão” e “a falta de liberdade de expressão”.
Como é que López fez chegar, então, estas denúncias ao exterior das masmorras venezuelanas? Escrevendo-as em código num papel minúsculo que conseguiu passar clandestinamente à esposa, numa das suas visitas? Não, nada disso, o homem, que pretende afastar o seu adversário Henrique Capriles da liderança da MUD e tem pressa em ser presidente da Venezuela, gravou isto em vídeo. Alguns dos vídeos, de boa qualidade como se pode apreciar no Youtube, têm vários minutos, e foram difundidos amplamente nas redes sociais, televisões venezuelanas e de todo o mundo, graças à ampla e cara maquinaria mediática que o seu partido, uma vez mais, pôs em marcha.
Poderia fazer algo semelhante um preso em cárcere de um país europeu avançado, democratíssimo e garante dos direitos como o Estado espanhol? De que modo reagiriam um governo como o de Mariano Rajoy, os tribunais de Justiça e os meios de comunicação espanhóis, se um preso fizesse um apelo semelhante?
Se as penas são proporcionais ao delito, que opinaria a Procuradoria da Audiência Nacional que pediu 50 anos de prisão para aqueles que agrediram ao murro, em Alsasua, dois guardas civis, se tivessem de julgar López por ter sido o primeiro instigador, em 2014, das violentas revoltas de rua contra o governo constitucional venezuelano, que deixaram o saldo de 43 mortos, dos dois lados?
Aceitariam o governo, os tribunais e os meios de comunicação espanhóis, conceder o estatuto de preso político a golpistas reincidentes, como López e muitos dos detidos nos últimos 3 meses, alguns dos quais lincharam activistas chavistas, incendiaram dezenas de armazéns dos CLAP (centros governamentais de distribuição de alimentos) e tentaram tomar de assalto a sede do Tribunal Supremo e outros edifícios públicos?
São presos políticos os que mataram a tiro, no início de junho passado, numa barricada, o juiz Nelson Moncada, que ratificara a condenação de López.
Poucos dias depois de conhecer-se o vídeo em que López incitou os militares venezuelanos a rebelarem-se, outro salvador da pátria fazia-se eco desse apelo. Óscar Pérez, um inspector da polícia e actor ocasional de filmes de acção, atacava com granadas e disparos de um helicóptero roubado com a ajuda de outros polícias, as sedes do Ministério do Interior e do Tribunal Supremo.
Outro dirigente opositor, líder estudantil da Universidade Central de Venezuela e deputado de Primero Justicia, Juan Requesens, dizia, numa conferência na Flórida, a 5 de Julho passado, que “para chegar a uma intervenção estrangeira temos que passar por esta etapa”, em referência aos actuais confrontos na rua. A etapa actual é apenas um pré-aquecimento.
Nem López nem o inspector Pérez conseguiram o apoio militar que esperavam, como tão-pouco conseguiu Julio Borges, o também presidente opositor da Assembleia Nacional, que vem fazendo constantes apelos públicos às forças armadas a que se decidam “pelo lado do povo”.
Convencidos de que não conseguirão fracturar as Forças Armadas para o derrube pela força de Nicolás Maduro, os sectores mais golpistas da Mesa de Unidade Opositora apostam no “quanto pior, melhor”. Para isso, não lhes basta o boicote empresarial, açambarcamento de mercadorias para especular com os preços, provocar a falta de abastecimento e, com isso, aumentar o mal-estar social, mas é preciso que o mundo inteiro veja sangue nas ruas da Venezuela. Querem mortos, um caos total, que justifique uma intervenção estrangeira e que Luis Leonardo Almagro, secretário-geral da OEA, parece pedir aos gritos.

López, um dos autores do golpe de 2002

Quando Alberto Garzón chamou “golpista” a López no Twitter, depois deste ter saído da prisão, Toni Cantó apressou-se a atacá-lo, logo seguido de Gallardón, porém, o líder da IU replicou, chamando-lhe “golpista reincidente”. E com razão.
Não é necessário ser-se admirador de Maduro e do seu governo para admitir essa realidade. E mais, duma perspectiva de esquerda, pode-se – deve-se, acrescentaria eu – ser muito crítico com a gestão e a deriva que tomou o seu governo em muitos aspectos, mas sabendo, contudo, distinguir sempre claramente o que representou de mudança substancial, para a Venezuela e América Latina, o processo que se iniciou em 1998, na Venezuela, com a chegada de Chávez ao poder e o que representa a “alternativa” opositora, o sector mais ultra e oligárquico da MUD e seus interessados aliados nacionais e internacionais.
Para poder ganhar apoio em sectores populares desconfiados com tantos dirigentes opositores de reconhecidas famílias oligarcas, como é o caso de López, Machado ou Capriles, a MUD há muito que já mudou de táctica e não anuncia, como antes, que vai acabar com as reformas sociais, que levaram a educação, a saúde, pensões e habitação social a milhões de pessoas, prometendo o contrário, que, inclusivamente, melhorarão.
Da biografia de Leopoldo López muitos querem apagar vários episódios, alguns deles relacionados com os seus problemas na Contraloría General de la República, que o imputou, na década passada, por receber uma quantia milionária da Petróleos de Venezuela (Pdvsa, a poderosa empresa, da qual era funcionário e a mãe dele alta executiva) para financiar o seu partido de então, Primero Justicia, do que se separaria logo, pelos seus choques com Capriles. Também foi sancionado, em 2009, pelo desvio de grandes verbas dos fundos da Câmara de Chacao, no estado de Miranda, à frente da qual esteve entre 2000 e 2008.
Para alguém que está a acusar constantemente o Governo de Nicolás Maduro de “corrupto” não são precisamente bons os dados do seu currículo. Mas talvez os mais incómodos antecedentes de alguém que, como López, se auto-erigiu em defensor da democracia e das liberdades, são os de 2002, os do golpe de Estado contra Hugo Chávez.
López, como o seu rival interno, Henrique Capriles, e como muitos outros dirigentes actuais da MUD, apoiaram abertamente o golpe de Estado de 12 de Abril desse ano, porém López, tal como María Corina Machado, líder de Vente Venezuela, estiveram, além do mais, entre os cerca de 400 ilustres subscritores daActa de Constitución del Gobierno de Transición Democrática y Unidade Nacional, conhecida como Decreto Carmona ou Carmonazo, do nome do efémero presidente de facto, Pedro Carmona, nada menos que o presidente da Fedecámaras, a confederação do grande patronato.
Através dessa acta decidia-se dar plenos poderes a Carmona, suspender a Assembleia Nacional, assim como todos os cargos públicos, nacionais, regionais e municipais, que o presidente decidisse, e prometia-se convocar eleições gerais no prazo máximo de um ano. Não tardou nada a conhecer-se a caça às bruxas prevista após o golpe, assim como a anulação das importantes reformas sociais impulsionadas pelo governo e ainda a privatização e reprivatização de empresas públicas que se seguiriam.
Mudando o nome de Chávez pelo de Maduro e alguns pequenos detalhes de argumentação, López e Machado certamente subscreveriam de novo aquele Decreto Carmona, se pudessem provocar a queda violenta de Maduro. Assim que López saiu da prisão apelou, da sua mansão, à “resistência”, animando os “jovens dos escudos” que inflamam, cada vez mais violentamente, as ruas de alguns bairros de Caracas.

Vargas Llosa: “És um herói da paz”

A acontecer um cenário do género, a conseguir-se consumar, hipoteticamente, com êxito, um golpe contra Maduro, alguns dos primeiros que o aplaudiriam no exterior, além dos grandes democratas como Trump, Macri, Temer ou Uribe, seriam Felipe González, Aznar, Rajoy, Rivera e os mesmos grandes grupos mediáticos espanhóis, que já celebraram, em 2002, nos seus editoriais e desinformações o frustrado golpe de Estado contra Hugo Chávez, com o El País e o grupo Prisa à cabeça.
Das masmorras de Maduro, entre tortura e tortura, Leopoldo López não só gravou vídeos que enviou para o exterior, como também escreveu um livro, Preso pero libre. O prólogo, claro que sim, é de dom Felipe González, ligado estreitamente, desde há anos, à mãe de López, Maria Antonieta Mendonza de López. A mãe do líder opositor foi, desde o ano 2000 até há muito pouco tempo, pelo menos, a Vice-Presidente de Assuntos Corporativos do holding Organización Cisneros, propriedade do magnata Gustavo Cisneros, grande amigo e sócio de Felipe González. Cisneros, que, segundo o número da Newsweek, de 22 de Abril de 2002, poucos dias depois do golpe de Estado, esteve “no vértice” do mesmo, fez a grande negociata da compra-venda das Galerías Preciados, graças a uma escandalosa e falada operação financeira, facilitada pelo governo de Felipe González.
A poderosa mãe de Leopoldo López Mendoza também é membro da Cámara Venezuelano-América de Comercio e Industria e membro também do Comité de Medios de Comunicación de Venamcham.
Aznar mantém igualmente uma excelente relação com Cisneros e não foi por acaso que lhe concedeu a nacionalidade espanhola uns meses antes do golpe de Abril de 2002.
Na apresentação do livro em Madrid, em Março de 2016, Mario Vargas Llosa disse que López era “um herói do nosso tempo, um herói da paz, um herói civil”. E, na coluna que dedicou ao golpista reincidente, em El País, poucos dias depois, o Nobel assegurou: “Leopoldo López é um idealista e um pacifista convencido. Os seus modelos são Gandhi, Mandela, Martin Luther King, Vaclav Havel, a madre Teresa de Calcutá e, como convicto crente que é, Cristo”.
A exaltação que se fez, em Espanha, de López, é, sem dúvida, uma aposta decidida na linha mais dura e beligerante da oposição venezuelana, não na oposição em geral, que incui forças reivindicando-se da socialdemocracia.
Tanto Leopoldo López, como Corina Machado recusaram sempre qualquer diálogo com o governo, primeiro com o de Chávez e, depois, com o de Maduro. Recusaram, igualmente, participar, durante anos, nos processos eleitorais e aceitaram contra vontade a mudança de estratégia e o resultado das primárias da MUD, que elegeram, em 2012, Henrique Capriles como candidato à presidência. Após os contínuos fracassos eleitorais da MUD, López e Machado atribuíram à “tibieza” de Capriles as derrotas sofridas, tanto frente a Chávez como, depois, a Maduro e, em 2014, optaram pela violência nas ruas, lançaram La Salida, um plano de manifestações violentíssimas, durante semanas e semanas. Procuravam que as Forças Armadas se fracturassem e que a gente “dos cerros” baixasse em massa como no Caracazo de 1989, contra os planos de ajustamento do governo de Andrés Pérez – o outro grande amigo de Felipe González – que se saldou com centenas de vítimas ou como tinha baixado, em Abril de 2002, para enfrentar e derrotar o golpe de Estado contra Chávez.
Mas a gente dos “cerros”, nesta ocasião, não baixou, como pretendia López, apesar da penúria que passa e as Forças Armadas tão-pouco se rebelaram.
Foi por causa dessas revoltas de 2014, extremamente violentas, que López foi detido e condenado a 13 anos de prisão, dos quais cumpriu três anos e meio, antes de se lhe conceder a actual prisão domiciliária.
López já desalojou Capriles da liderança da MUD e, a celebrarem-se actualmente umas novas primárias na MUD, parece evidente que o candidato presidencial, agora, seria López e não Capriles.
O apoio decidido e interessado do governo, de políticos, multinacionais e grandes grupos mediáticos espanhóis, que tanto reivindicam a democracia e a liberdade, contribuiu, sem dúvida, uma vez mais, para a estratégia golpista na Venezuela.

* Jornalista e escritor
Texto traduzido de http://blogs.publico.es/otrasmiradas/9528/leopoldo-lopez-un-golpista-consecuente/ 

terça-feira, 4 de abril de 2017

SALÁRIOS E PENSÕES DOS CHEFES DA TROIKA

Por JUAN OLIVER

Os ideólogos e executantes dos programas de cortes sociais e direitos laborais que deixaram na pobreza centenas de milhares de famílias europeias cobram salários multimilionários, desfrutam de condições de trabalho dignas de chefes de Estado e garantem para si reformas de luxo quando saem dos cargos, seja qual for o resultado do seu mandato.


Christine Lagarde, Mario Draghi y Jean-Claude Juncker en una reunión informal del Eurogrupo en Nicosia (Chipre). AFP/ Yiannis Kourtoglou


Os máximos representantes da troika, o presidente da Comissão Europeia, o luxemburguês Jean-Claude Junker, a directora geral do FMI, a francesa Christine Lagarde e o presidente do Banco Central Europeu, o italiano Mario Graghi, levam, entre os três, cerca de 1,25 milhões de euros anuais em salários e achegas várias.
Enquanto exigem redução de ordenados, salários mínimos e pensões, cortes nos gastos sociais, saúde e educação e a flexibilização das causas de despedimento; enquanto ameaçam com multas escandalosas os países que não cumpram as suas ordens em matéria de défice e endividamento, enriquecem com remunerações, que multiplicam por oito as dos chefes de governo, como o espanhol e que superam em muito o limite razoável para manter a dignidade do cargo.
É corrupção? O Dicionário da Real Academia define este termo da seguinte maneira: “Nas organizações, especialmente as públicas, a prática que consiste na utilização das funções e meios em proveito, económico ou de outra índole, dos seus gestores”.

Jean-Claude Junker, luxemburguês, presidente da Comissão Europeia, não dá a conhecer o seu salário, embora isso esteja estabelecido no regulamento 422/67 do Conselho Europeu, que determina as remunerações do presidente e dos membros da Comissão Europeia.
O salário de Junker deve ser 138% do salário máximo de um funcionário das instituições europeias. Actualmente, é de 324.377 euros, tendo, no ano passado, subido 3,2%, o triplo do crescimento da inflação na UE, 1,1%, e na Eurozona, 1,02%.
E não só. Junker recebe, além disso, mais 48.600 euros para habitação ( 15% do seu salário bruto) e 1.418 euros adicionais, por mês, como “subsídio de ócio”. Claro que ajudas de custo, alojamento, despesas com viagens e manutenção são pagas à parte.
Ser presidente da Comissão é uma mina, mas deixar de o ser, também. Quando se retirar, Junker receberá, durante três anos, uma indeminização mensal entre 40% e 65% do seu salário, dependendo dos anos no cargo. Se tal acontecesse hoje, como está no cargo há menos de três anos, não teria direito ao máximo. E arrecadaria apenas, num triénio, mais de meio milhão de euros. Dentro de dois anos, quando cumpra 65 de idade, terá direito a uma pensão vitalícia que se calcula em função do tempo em que se manteve no cargo.
Se for até ao fim dos mandatos, como o seu predecessor, o português José Manuel Durão Barroso, receberá uns 160.000 euros por ano. Como se fosse pouco, esse subsídio será compatível com qualquer outra pensão pública a que tenha direito no seu país.

Christine Lagarde, francesa, directora geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), quando foi nomeada, em Julho de 2011, recebeu uma carta do seu novo empregador onde se detalhavam as suas condições salariais e laborais: 440.000 euros por ano, além das ajudas de custo e despesas de representação, viagens, manutenção e alojamento grátis. Para ela, evidentemente, mas também para o seu consorte se este decidir acompanhá-la às reuniões do FMI que se celebrem fora de Washington, onde o organismo tem a sua sede central.
O salário não deve ser suficiente aos olhos dos dirigentes da organização, pois, pelo sim pelo não, acrescentaram um subsídio de 6.700 euros por mês para que possa “manter um nível de vida apropriado à sua posição”.
Lagarde usufrui do fundo de pensões comum do pessoal do FMI, mas, além disso, quando deixar o cargo, receberá, por ano, a partir dos 67 anos, uma percentagem da sua remuneração proporcional aos anos em que lá esteve. Algo de semelhante ao caso de Junker.
Chegará a 100% se estiver dez anos e, como já leva seis, tem assegurados uns 367.000 anuais. Se Lagarde falecer antes do seu consorte, ele herdará a pensão para toda a vida e os filhos receberão também um subsídio.

Mario Draghi, italiano, presidente do Banco Central Europeu, além de ter assegurados o aluguer da casa, ajudas de custo, viagens, etc., recebeu 385.860 euros anuais, segundo as contas do BCE correspondentes a 2015. No ano anterior, ganhou 379.608 euros e, no ano de 2013, 378.240 euros.
Desde 2007, quando começou a crise económica, o salário do presidente do BCE cresceu 45.000 euros anuais, mais de 13%.

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Ver texto original em http://www.publico.es/economia/jefes-troika-ganan-25-millones.html

domingo, 19 de julho de 2015

Fomos enganados e bem enganados.
Enganados quando acreditámos que Tsipras era um homem sério e enganados quando criticámos a oposição constante do KKE, Partido Comunista Grego, ao Syriza.
Neste momento de traição absoluta, não só ao povo grego, mas a todos os povos da Europa, é importante saber que muitos homens e mulheres continuam dispostos a resistir e a lutar contra o fascismo (1), imposto pela Alemanha e aceite, com entusiasmo, pelos colaboracionistas dos diferentes países da EU, a começar pelo de Portugal e a acabar, agora, no da Grécia.
De entre alguns elementos do Syriza que recusaram a humilhação, está o ex-ministro das Finanças, Varoufakis, que se demitiu e votou contra o acordo de capitulação assinado por Tsipras.
É este acordo ignóbil, para quem o propôs e para quem o aceitou, que Varoufakis fez questão em publicar e comentar, ponto por ponto.
Nós traduzimos alguns desses comentários ao lado do texto original (que pode ser consultado na página web de Varoufakis).


(1)  Para quem julga viver em democracia só porque, de tantos em tantos anos, introduz um papelinho numa urna de votos, saiba o que, há mais de um século, alguém tão lúcido como Eça de Queirós disse, pela boca do Conde de Abranhos. “ Eu que sou governo, fraco mas hábil, dou aparentemente a soberania ao povo, que é forte e simples. Mas, como a falta de educação o mantém na imbecilidade, e o adormecimento da consciência o amolece na indiferença, faço-o exercer essa soberania em meu proveito… E quanto ao seu proveito… adeus, ó compadre!
Ponho-lhe na mão uma espada; e ele, baboso, diz: eu sou a força! Coloco-lhe no regaço uma bolsa, e ele, inchado, afirma: eu sou a fazenda! Ponho-lhe diante do nariz um livro, e ele, exclama, de papo: eu sou a lei! Idiota! Não vê que por trás dele, sou eu, astuto manejador de títeres, quem move os cordéis que prendem a espada, a bolsa e o livro!”.

E, saiba-se, também, que fascismo é a exploração extrema de quem trabalha e produz, não sendo necessário que o figurino apresente sempre um bigodinho, braço estendido ou passo de ganso. 

                              


                            


Acordo do Eurogrupo

The Euro Summit stresses the crucial need to rebuild trust with the Greek authorities [i.e. the Greek government must introduce new stringent austerity directed at the weakest Greeks that have already suffered grossly] as a pre- requisite for a possible future agreement on a new ESM programme [i.e. for a new extend-and-pretend loan].
In this context, the ownership by the Greek authorities is key [i.e. the Syriza government must sign a declaration of having defected to the troika’s ‘logic’], and successful implementation should follow policy commitments.
A euro area Member State requesting financial assistance from the ESM is expected to address, wherever possible, a similar request to the IMF This is a precondition for the Eurogroup to agree on a new ESM programme. Therefore Greece will request continued IMF support (monitoring and financing) from March 2016 [i.e. Berlin continues to believe that the Commission cannot be trusted to ‘police’ Europe’s own ‘bailout’ programs].
Given the need to rebuild trust with Greece, the Euro Summit welcomes the commitments of the Greek authorities to legislate without delay a first set of measures [i.e. Greece must subject itself to fiscal waterboarding, even before any financing is offered]. These measures, taken in full prior agreement with the Institutions, will include:
By 15 July
§  the streamlining of the VAT system [i.e. making it more regressive, through rate rises that encourage more VAT evasion]and the broadening of the tax base to increase revenue [i.e. dealing a major blow at the only Greek growth industry – tourism].
§  upfront measures to improve long-term sustainability of the pension system as part of a comprehensive pension reform programme [i.e. reducing the lowest of the low of pensions, while ignoring that the depletion of pension funds’ capital due to the 2012 troika-designed PSI and the ill effects of low employment & undeclared paid labour].
§  the safeguarding of the full legal independence of ELSTAT [i.e. the troika demands complete control of the way Greece’s budget balance is computed, with a view to controlling fully the magnitude of austerity it imposes on the government.]
§  full implementation of the relevant provisions of the Treaty on Stability, Coordination and Governance in the Economic and Monetary Union, in particular by making the Fiscal Council operational before finalizing the MoU and introducing quasi-automatic spending cuts in case of deviations from ambitious primary surplus targets after seeking advice from the Fiscal Council and subject to prior approval of the Institutions [i.e. the Greek government, which knows that the imposed fiscal targets will never be achieved under the imposed austerity, must commit to further, automated austerity as a result of the troika’s newest failures.]
By 22 July
§  the adoption of the Code of Civil Procedure, which is a major overhaul of procedures and arrangements for the civil justice system and can significantly accelerate the judicial process and reduce costs [i.e. foreclosures, evictions and liquidation of thousands of homes and businesses who are not in a position to keep up with their mortgages/loans.]
§  the transposition of the BRRD with support from the European Commission.
Immediately, and only subsequent to legal implementation of the first four above-mentioned measures as well as endorsement of all the commitments included in this document by the Greek Parliament, verified by the Institutions and the Eurogroup, may a decision to mandate the Institutions to negotiate a Memorandum of Understanding (MoU) be taken [i.e. The Syriza government must be humiliated to the extent that it is asked to impose harsh austerity upon itself as a first step towards requesting another toxic bailout loan, of the sort that Syriza became internationally famous for opposing.]
This decision would be taken subject to national procedures having been completed and if the preconditions of Article 13 of the ESM Treaty are met on the basis of the assessment referred to in Article 13.1. In order to form the basis for a successful conclusion of the MoU, the Greek offer of reform measures needs to be seriously strengthened to take into account the strongly deteriorated economic and fiscal position of the country during the last year [i.e. the Syriza government must accept the lie that it, and not the asphyxiation tactics of the creditors, caused the sharp economic deterioration of the past six months – the victim is being asked to take the blame by the on behalf of the villain.]
The Greek government needs to formally commit to strengthening their proposals [i.e. to make them more regressive and more inhuman] in a number of areas identified by the Institutions, with a satisfactory clear timetable for legislation and implementation, including structural benchmarks, milestones and quantitative benchmarks, to have clarity on the direction of policies over the medium-run. They notably need, in agreement with the Institutions, to:
§  carry out ambitious pension reforms [i.e. cuts] and specify policies to fully compensate for the fiscal impact of the Constitutional Court ruling on the 2012 pension reform [i.e. cancel the Court’s decision in favour of pensioners] and to implement the zero deficit clause [i.e. cut by 85% the secondary pensions that the Syriza government fought tooth and nail to preserve over the past five months] or mutually agreeable alternative measures [i.e. find ‘equivalent’ victims] by October 2015;
§  adopt more ambitious product market reforms with a clear timetable for implementation of all OECD toolkit I recommendations [i.e. the recommendations that the OECD has now renounced after having re-designed these reforms in collaboration with the Syriza government], including Sunday trade, sales periods, pharmacy ownership, milk and bakeries, except over-the-counter pharmaceutical products, which will be implemented in a next step, as well as for the opening of macro-critical closed professions (e.g. ferry transportation). On the follow-up of the OECD toolkit-II, manufacturing needs to be included in the prior action;
§  on energy markets, proceed with the privatisation of the electricity transmission network operator (ADMIE), unless replacement measures can be found that have equivalent effect on competition, as agreed by the Institutions [i.e. ADMIE will be sold off to specific foreign vested interests at the behest of the Institutions.]
§  on labour markets, undertake rigorous reviews and modernisation of collective bargaining [i.e. to make sure that no collective bargaining is allowed], industrial action [i.e. that must be banned] and, in line with the relevant EU directive and best practice, collective dismissals [i.e. that should be allowed at the employers’ whim], along the timetable and the approach agreed with the Institutions [i.e. the Troika decides.]
On the basis of these reviews, labour market policies should be aligned with international and European best practices, and should not involve a return to past policy settings which are not compatible with the goals of promoting sustainable and inclusive growth [i.e. there should be no mechanisms that waged labour can use to extract better conditions from employers.]
§  adopt the necessary steps to strengthen the financial sector, including decisive action on non-performing loans [i.e. a tsunami of foreclosures is ante portas] and measures to strengthen governance of the HFSF and the banks [i.e. the Greek people who maintain the HFSF and the banks will have precisely zero control over the HFSF and the banks.], in particular by eliminating any possibility for political interference especially in appointment processes. [i.e. except the political interference of the Troika.] On top of that, the Greek authorities shall take the following actions:
§  to develop a significantly scaled up privatisation programme with improved governance; valuable Greek assets will be transferred to an independent fund that will monetize the assets through privatisations and other means [i.e. an East German-like Treuhand is envisaged to sell off all public property but without the equivalent large investments that W. Germany put into E. Germany in compensation for the Treuhand disaster.] The monetization of the assets will be one source to make the scheduled repayment of the new loan of ESM and generate over the life of the new loan a targeted total of EUR 50bn of which EUR 25bn will be used for the repayment of recapitalization of banks and other assets and 50 % of every remaining euro (i.e. 50% of EUR 25bn) will be used for decreasing the debt to GDP ratio and the remaining 50 % will be used for investments [i.e. public property will be sold off and the pitiful sums will go toward servicing an un-serviceable debt – with precisely nothing left over for public or private investments.] This fund would be established in Greece and be managed by the Greek authorities under the supervision of the relevant European Institutions [i.e. it will be nominally in Greece but, just like the HFSF or the Bank of Greece, it will be controlled fully by the creditors.] In agreement with Institutions and building on best international practices, a legislative framework should be adopted to ensure transparent procedures and adequate asset sale pricing, according to OECD principles and standards on the management of State Owned Enterprises (SOEs) [i.e. the Troika will do what it likes.]
§  in line with the Greek government ambitions, to modernise and significantly strengthen the Greek administration, and to put in place a programme, under the auspices of the European Commission, for capacity-building and de-politicizing the Greek administration [i.e. Turning Greece into a democracy-free zone modelled on Brussels, a form of supposedly technocratic government, which is politically toxic and macro-economically inept] A first proposal should be provided by 20 July after discussions with the Institutions. The Greek government commits to reduce further the costs of the Greek administration [i.e. to reduce the lowest wages while increasing a little the wages some of the Troika-friendly apparatchiks], in line with a schedule agreed with the Institutions.
§  to fully normalize working methods with the Institutions, including the necessary work on the ground in Athens, to improve programme implementation and monitoring [i.e. The Troika strikes back and demands that the Greek government invite it to return to Athens as Conqueror – the Carthaginian Peace in all its glory.] The government needs to consult and agree with the Institutions on all draft legislation in relevant areas with adequate time before submitting it for public consultation or to Parliament [i.e. Greek Parliament must, again, after five months of short-lived independence, become an appendage of the Troika – passing translated legislation mechanistically.] The Euro Summit stresses again that implementation is key, and in that context welcomes the intention of the Greek authorities to request by 20 July support from the Institutions and Member States for technical assistance, and asks the European Commission to coordinate this support from Europe;
§  With the exception of the humanitarian crisis bill, the Greek government will reexamine with a view to amending legislations that were introduced counter to the February 20 agreement by backtracking on previous programme commitments or identify clear compensatory equivalents for the vested rights that were subsequently created [i.e. In addition to promising that it will no longer legislative autonomously, the Greek government will retrospectively annul all Bills it passed over the past five months.]
The above-listed commitments are minimum requirements to start the negotiations with the Greek authorities. However, the Euro Summit made it clear that the start of negotiations does not preclude any final possible agreement on a new ESM programme, which will have to be based on a decision on the whole package (including financing needs, debt sustainability and possible bridge financing) [i.e. self-flagellate, impose further austerity upon an economy crushed by austerity, and then we shall see whether the Eurogroup will grave you with another toxic, unsustainable loans.]
The Euro Summit takes note of the possible programme financing needs of between EUR 82 and 86bn, as assessed by the Institutions [i.e. the Eurogroup conjured up a huge number, well above what is necessary, in order to signal the debt restructuring is out and that debt bondage ad infinitum is the name of the game.] It invites the Institutions to explore possibilities to reduce the financing envelope, through an alternative fiscal path or higher privatisation proceeds [i.e. And, yes, it may possible that pigs will fly.] Restoring market access, which is an objective of any financial assistance programme, lowers the need to draw on the total financing envelope [i.e. which is something the creditors will do their utmost to avoid, e.g. by ensuring that Greece will only enter the ECB’s quantitative easing program in 2018, once quantitative easing is… over.]
The Euro Summit takes note of the urgent financing needs of Greece which underline the need for very swift progress in reaching a decision on a new MoU: these are estimated to amount to EUR 7bn by 20 July and an additional EUR 5bn by mid August [i.e. Extend and Pretend gets another spin.] The Euro Summit acknowledges the importance of ensuring that the Greek sovereign can clear its arrears to the IMF and to the Bank of Greece and honour its debt obligations in the coming weeks to create conditions which allow for an orderly conclusion of the negotiations. The risks of not concluding swiftly the negotiations remain fully with Greece [i.e. Once more, demanding that the victim takes all the blame in behalf of the villain.] The Euro Summit invites the Eurogroup to discuss these issues as a matter of urgency.
Given the acute challenges of the Greek financial sector, the total envelope of a possible new ESM programme would have to include the establishment of a buffer of EUR 10 to 25bn for the banking sector in order to address potential bank recapitalisation needs and resolution costs, of which EUR 10bn would be made available immediately in a segregated account at the ESM [i.e. the Troika admits that the 2013-14 recapitalisation of the banks, which would only need a top up of at most 10 billion, was insufficient – but, of course, blames it on… the Syriza government.]
The Euro Summit is aware that a rapid decision on a new programme is a condition to allow banks to reopen, thus avoiding an increase in the total financing envelope [i.e. The Troika closed Greece’s banks to force the Syriza government to capitulate and now cries out for their re-opening.] The ECB/SSM will conduct a comprehensive assessment after the summer. The overall buffer will cater for possible capital shortfalls following the comprehensive assessment after the legal framework is applied.
There are serious concerns regarding the sustainability of Greek debt [N.b. Really? Gosh!] This is due to the easing of policies during the last twelve months, which resulted in the recent deterioration in the domestic macroeconomic and financial environment [i.e. It is not the Extend and Pretend ‘bailout’ loans of 2010 and 2012 that, in conjunction with GDP-sapping austerity, caused the debt to scale immense heights – it was the prospect, and reality, of a government that criticized the the Extend and Pretend ‘bailout’ loans that… caused Debt’s Unustainability!]
The Euro Summit recalls that the euro area Member States have, throughout the last few years, adopted a remarkable set of measures supporting Greece’s debt sustainability, which have smoothed Greece’s debt servicing path and reduced costs significantly [i.e. The 1st & 2nd ‘bailout’ programs failed, the debt skyrocketing as it was always going to since the real purpose of the ‘bailout’ programs was to transfer banking losses to Europe’s taxpayers.] Against this background, in the context of a possible future ESM programme, and in line with the spirit of the Eurogroup statement of November 2012 [i.e. a promise of debt restructure to the previous Greek government was never kept by the creditors], the Eurogroup stands ready to consider, if necessary, possible additional measures (possible longer grace and payment periods) aiming at ensuring that gross financing needs remain at a sustainable level. These measures will be conditional upon full implementation of the measures to be agreed in a possible new programme and will be considered after the first positive completion of a review [i.e. Yet again, the Troika shall let the Greek government labour under un-payable debt and when, as a result, the program fails, poverty rises further and incomes collapse much more, then we may haircut some of the debt – as the Troika did in 2012.]
The Euro Summit stresses that nominal haircuts on the debt cannot be undertaken [N.b. The Syriza government has been suggesting, since January, a moderate debt restructure, with no haircuts, maximizing the expected net present value of Greece’s repayments to creditors’ – which was rejected by the Troika because their aim was, simply, to humiliate Syriza.] Greek authorities reiterate their unequivocal commitment to honour their financial obligations to all their creditors fully and in a timely manner [N.b. Which can only happen after a substantial debt restrucuture.] Provided that all the necessary conditions contained in this document are fulfilled, the Eurogroup and ESM Board of Governors may, in accordance with Article 13.2 of the ESM Treaty, mandate the Institutions to negotiate a new ESM programme, if the preconditions of Article 13 of the ESM Treaty are met on the basis of the assessment referred to in Article 13.1. To help support growth and job creation in Greece (in the next 3-5 years) [N.b. Having already destroyed growth and jobs for the past five years…] the Commission will work closely with the Greek authorities to mobilise up to EUR 35bn (under various EU programmes) to fund investment and economic activity, including in SMEs [i.e. Will use the same order of magnitude of structural funds, plus some fantasy money, as were available in 2010-2014.] As an exceptional measure and given the unique situation of Greece the Commission will propose to increase the level of pre-financing by EUR 1bn to give an immediate boost to investment to be dealt with by the EU co-legislators [i.e. Of the headline 35 billion, consider 1 billion as real money.] The Investment Plan for Europe will also provide funding opportunities for Greece [i.e. the same plan that most Eurozone ministers of finance refer to as a phantom program].

Termos da rendição da Grécia



[i.e., o governo grego deve instaurar uma austeridade ainda mais rigorosa, atingindo os cidadãos gregos mais vulneráveis que já sofreram largamente].































 [i.e., assestar um grande golpe ao único sector grego de crescimento – o turismo.]




[i.e., diminuir as mais baixas das pequenas pensões, dando a entender que o esgotamento dos fundos de pensões não é devido ao PSI, elaborado pela troika em 2012, com o consequente efeito de baixa do número de empregos e aumento do trabalho clandestino].

[i.e., a troika exige um controlo total sobre a forma como a Grécia elabora o seu equilíbrio orçamental, com o objectivo de controlar completamente a amplidão de austeridade que ela impõe ao governo]













[i.e., o governo grego, que sabe que os objectivos orçamentais impostos não serão jamais atingidos com a austeridade imposta, deve comprometer-se com uma austeridade ainda mais forte e sistemática, resultante dosúltimos erros da troika]






















 [i.e., o governo Syriza deve ser humilhado, ao ponto de exigirem que imponha, por si próprio, uma austeridade rigorosa, como prelúdio a um novo pedido de resgate tóxico, o mesmo cuja rejeição tornou o Syriza internacionalmente célebre]












 [i.e., o governo Syriza tem de aderir à mentira que faz dele, e não dos credores e das suas táticas de asfixia, o responsável da forte deterioração da situação económica no curso dos últimos seis meses – pede-se à vítima que assuma a culpa do vilão]













[i.e., anular a decisão do Tribunal Constitucional favorável aos reformados]

[i.e., reduzir em 85% os complementos de reforma, que o governo Syriza havia defendido, com unhas e dentes, ao longo dos últimos cinco meses]

























  
 [i.e., ADMIE [rede de distribuição de electricidade] será privatizada para único benefício de interesses particulares estrangeiros, por ordem das instituições]



[i.e., assegurar-se de que nenhuma negociação colectiva é possível]
[i.e., que deve ser proibida [acção sindical]]


[i.e., que deve ser submetido aos caprichos dos empregadores [o despedimento colectivo]]







[i.e., não deve existir nenhum mecanismo que permita aos assalariados obter, dos empregadores, melhores condições]



[i.e., anuncia-se um tsunami de penhoras]



































 [i.e., os bens públicos serão liquidados e as magras somas assim obtidas serão destinadas ao serviço de uma dívida insustentável – sem que nada reste para investimentos públicos ou privados.]
























[i.e., fazer da Grécia uma zona livre de democracia, segundo o modelo de Bruxelas, uma forma de governo supostamente tecnocrático, politicamente tóxico e macro-economicamente inepto].














[i.e., a Troika contra-ataca e exige que o governo grego a convide a regressar a Atenas como vencedora – a paz cartaginesa em todo o seu esplendor]






[i.e., o parlamento grego deve, de novo, após cinco meses de uma breve independência, tornar-se um apêndice da Troika – aprovar, mecanicamente, legislação traduzida.]



















 [i.e., além de prometer que não legislará mais de forma autónoma, o governo grego anulará, retrospectivamente, todas as leis que aprovadas nos últimos cinco meses.]

















  [i.e., o Eurogrupo tirou da cartola uma soma exorbitante, muito superior ao que é realmente necessário, para sublinhar que uma reestruturação da dívida está fora de questão e que o nome do jogo é a servidão eterna da dívida.]